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Diagnosticado consumista

Veja por um momento a nossa existência como uma doença, onde o sintoma principal seja o desejo.

Desejamos a todo instante, por mais simples que seja o desejo, você está sempre desejando algo, que seja, por exemplo, saciar uma necessidade fisiológica como a fome, você deseja se alimentar e ao matar a fome, feito isso logo surge outro desejo como se sentar, dormir, coçar o nariz, ligar para alguém ou qualquer outro desejo, por mais simples que seja, você sofre a vontade até realiza-lo. O desejo é sofrimento, sofremos nas pequenas vontades.

No mundo atual, no sistema capitalista melhor dizendo, nos oferecem infinitos “remédios” para amenizar este sintoma que sofremos, me refiro aos produtos em geral, e esse “tratamento” se chama consumismo, consumimos porque é da nossa essência desejar. Mas porque desejamos cada vez mais e diferentes versões do mesmo produto? Porque compramos e logo o mesmo desejo volta? E porque desejamos em seguida o mais caro?

A resposta começa onde começamos, na pré-história, sim, os homens das cavernas começaram tudo isso por uma questão de sobrevivência. O mais forte e inteligente se virava melhor, ele caçava bem e conseguia as melhores refeições, tinha o melhor abrigo e sobrevivia melhor que outros, assim chamava a atenção, e era interessante aos outros se aproximar dele e desfrutar de suas conquistas. Mas não era de graça, nosso homem primitivo ganhava respeito e poder, e quem não gosta de poder?

É ai que chegamos no ponto, se trata de poder. Hoje não é necessariamente o mais forte fisicamente que é o bem-sucedido aos olhos da sociedade. É o que tem mais dinheiro, pois infelizmente dinheiro é poder, poder de compra, de consumir o mais caro “remédio” da nossa doença, podendo oferecer o melhor… Mas espera aí, quem disse que o melhor é o mais caro?

O capitalismo, sistema que também precisa sobreviver, e sobrevive, nós o alimentamos, consumindo o que ele diz que é melhor, produtos com a mesma função em suas diversas apresentações que o valorizam exageradamente. Produtos que você nem precisa, que foram inventados para suprir necessidades que você nem sabia que tinha até que lhe apresentaram.

Dessa forma, criam desejos que você não tem, aproveitam dessa condição competitiva, assim somos levados a acreditar que possuindo o mais caro é uma forma de demonstrar nosso poder dentro do grupo que somos inseridos. Muitos vivem em função de parecer poder mais do que pode.

A moda é sempre citada quando o assunto é consumismo exagerado e desnecessário, pois alegam que são itens de maior futilidade. E você deve estar pensando como um estudante de moda pode pensar assim, assumindo que faz parte desse universo que escraviza muitos. Faço parte, mas não concordo em diversos aspectos. Defendo que a moda é importante, e sei que não está entre os mais importantes assuntos da humanidade, mas é preciso que alguém a faça.

Pense, você ao comprar alguma roupa apenas pede seu tamanho para o vendedor e não vê as opções? Mesmo que não faça muita diferença, você não acaba escolhendo? Se a resposta é não, sinto muito, você faz parte de uma minoria um pouco estranha ou sua mãe que escolhe suas roupas até hoje.

O ser humano não vai deixar de ter seu gosto próprio, não vai deixar de se vestir, e está fora de cogitação tentar excluir a moda do nosso meio. Então é preciso que alguém crie diversas opções para que você escolha a que mais se parece com você.

Espero ver, e já começo a ver, moda acessível a todos. Todos tem o direito de ter sua personalidade demonstrada, se expressar ao vestir, se sentir bem ao usar, ser aceito e desfrutar de qualidade, tudo isso a um preço justo e sem a obsolescência programada, desejo ver cada um com seu estilo autêntico ou casual, sem ser dependente de tendências, sem pagar absurdos, consumindo sim, mas consciente e por vontade própria.

Ainda não sei se isso é possível, posso estar sendo ingênuo, provavelmente sim, porque sempre irá ter alguém que vai oferecer caro e alguém que vai pagar só porque pode, nunca terá fim, mas eu gostaria mesmo que ao menos as pessoas se despertassem para enxergar o poder que tem, independente do que compram, mas sim do que elas são.

O nosso planeta deseja, assim como nós, que deixamos de agir como se não houvesse amanhã, o amanhã existe e será o hoje de alguém. Seria legal ter nos livros de história o mesmo que nos livros de história da moda, contando que o homem começou a aprender a sobreviver denovo.

Caique Fernando Silva

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